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  • Foto do escritorAndré Luiz Figueirêdo

Navegando pela "dismorfia profissional": desvendando os aspectos psicológicos, influências sociais e o papel da competitividade capitalista.



Recentemente, ouvi um episódio de um podcast de comédia estadunidense que gosto bastante (Blocks Podcast w/ Neal Brennan), durante o qual um dos comediantes fala em "dismorfia de carreira". Ouvi o restante do episódio com muita curiosidade e, ao pesquisar, fui surpreendido por já haver alguns escritos a respeito do tema. E, querendo compartilhar do assunto, decidi escrever um pouco do que entendi, porém, achei mais interessante chamá-lo de dismorfia profissional. Penso tratar-se de uma complexa manifestação no cenário profissional contemporâneo, caracterizada pela percepção distorcida que os indivíduos têm de suas conquistas e sucesso, cuja origem tem relação ao Transtorno Dismórfico Corporal, onde as pessoas enxergam imperfeições em sua aparência não percebidas por outros. Alerto que NÃO existe um diagnóstico de "Dismorfia Profissional", portanto, não se trata de uma entidade clínica (não precisamos de mais uma, né?), mas vejo o seu debate como um fenômeno psíquico e social fundamental.


A dismorfia (dis + morfia = forma alterada) profissional mergulha suas raízes em fatores psicológicos e sociais que moldam a percepção individual de conquistas, autovalor e sucesso. A Teoria da Comparação Social, proposta em 1954 por Leon Festinger (psicólogo nova-iorquino, também autor da Teoria da Dissonância Cognitiva), destaca como os indivíduos determinam seu próprio valor comparando-se aos outros. E, num sistema em que a competitivadade é estimulada constantemente, podemos imaginar (e, em muitos casos, sentir) os efeitos dela. Nesse contexto, a incessante comparação pode levar a uma visão distorcida das realizações individuais, desencadeando sentimentos de inadequação e desafiando a autoestima. A comparação constante com colegas, amigos ou até mesmo figuras públicas nas redes sociais intensifica os desafios pessoais relacionados à dismorfia profissional. A necessidade de se equiparar aos outros muitas vezes leva a uma busca incessante por padrões inatingíveis, resultando em autocrítica exacerbada e sentimentos de insuficiência que extrapolam o contexto profissional.


A insegurança, intrinsecamente ligada à síndrome do impostor - que pode estar relacionada à dismorfia profissional, cria um terreno fértil para que esta última se manifeste. O medo constante de ter a sensação equivocada de ser descoberto como "fraude" alimenta a autocrítica e mina a confiança, tornando desafiador internalizar conquistas e reconhecer o próprio valor. Navega-se pela existência humanaa com a sensação constante de não ser merecedor do sucesso conquistado, com uma busca autoviolenta por compensações para lidar com a insegurança, mas acabamos presos em um ciclo de autoquestionamento e autossabotagem. A compensação torna-se uma resposta comum aos desafios enfrentados, à medida que os indivíduos buscam validar seu valor pessoal por meio de conquistas externas. No entanto, esse ciclo de busca constante por validação pode agravar a dismorfia profissional, desencadeando ansiedade e levando a uma insatisfação crônica.


Tudo isso, entretanto, tem um pano de fundo que não são muitos os que querem enxergar: o desajuste social, em particular com as redes sociais, exercendo uma pressão adicional, exacerbando os desafios pessoais associados à distorção da percepção de si enquanto sujeito - tanto em casa, quanto no trabalho. As plataformas digitais, ao expor narrativas meticulosamente elaboradas de sucesso, contribuem para a sensação de inadequação, desencadeando um ciclo de comparação constante que intensifica os desafios emocionais. Normas e expectativas sociais em relação ao sucesso profissional também desempenham um papel significativo nos desafios pessoais relacionados à dismorfia profissional. A estimulada pressão para atender a padrões convencionais pode alimentar a insegurança e a busca incessante por validação externa, exacerbando ainda mais os desafios psicológicos enfrentados pelos indivíduos. E a quem toda essa dinâmica interessa? Quem ganha com isso?


A estrutura capitalista é quem dá a tônica aos desafios pessoais associados à dismorfia profissional ao vincular o valor pessoal ao sucesso profissional, às conquistas financeiras e de "ascensão" a certos status. A competição acirrada e a pressão por acumular riqueza (seja lá o que isso signifique) como medida de sucesso exacerbam a necessidade de comparação constante, levando os indivíduos a buscar incessantemente a validação externa e a enfrentar desafios emocionais intensos.


Lidar com a distorção de percepções de si e seus desafios demanda uma abordagem holística, integrativa e, principalmente, um olhar social crítico. A definição externa de sucesso pode não ser compatível com o que a alma deseja realizar, profissional ou pessoa. Entender a quem serve a comparação, a sensação de disputa e conhecer seus próprios valores podem auxiliar a cultivar uma relação saudável com o SEU sucesso, redefinir critérios de realização e buscar apoio através de autoconhecimento. Levar-se ao limite, ou, pior ainda, não reconhecê-los ao estar superando-os pode ser violento com a sua própria existência e trazer ainda mais sofrimento e sensação de inadequação se os seus valores estão em desacordo com o que "manda a norma". Empregadores e a sociedade podem desempenhar um papel crucial ao promover ambientes que valorizem o bem-estar, reduzindo a pressão por comparação constante e incentivando uma abordagem mais equilibrada ao sucesso profissional.


Ao promover uma cultura que valoriza o bem-estar individual, oferece suporte para a redefinição de metas e encoraja o crescimento pessoal autêntico, podemos começar a desmantelar os aspectos tóxicos da dismorfia profissional, criando uma abordagem mais sustentável e gratificante para o trabalho e a vida.


Dr. André Luiz Figueirêdo

Médico Psiquiatra

CRM-SP 224805 | RQE 95913

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